Art exhibition poster titled 'Sustentar o Chao' with abstract geometric shapes.


Sustentar o chão


Sustentar a constância do gesto, sustentar a dúvida do olhar, sustentar o chão... de movimentos como esses que emergem e se constroem as práticas artísticas de Beatriz Lindenberg e Natalia Massi, bem como suas interpelações. Dividindo ateliê desde o início do ano, as artistas conduzem lado a lado suas pesquisas de modo autônomo. De toda forma, ainda que mobilizadas por processos e abordagens poéticas diferentes, o tempo de convivência no espaço de trabalho abriu lugar para afinidades e pontos de contato entre suas produções. 

Mesmo com trajetórias distintas, as artistas compartilham a inquietação de investigar a percepção do espaço ao seu redor. Em Beatriz, o corpo é ponto de partida: é seu instrumento, índice e resistência. Seu traço nasce do movimento físico sobre a superfície do papel, revelando o desenho como inscrição direta da presença e da força do corpo da mulher no espaço. Como consequência, linhas, manchas e massas de cor insurgem resultantes da fricção entre gesto e suporte, convertendo o ato de riscar em persistência e afirmação. Por vezes, seu desenho também transborda o lugar do ateliê. Avança por outras localidades e alcança a paisagem, estabelecendo um diálogo entre o corpo humano e outros corpos naturais — firmando relações entre gesto e território, bem como as condições socioambientais que o atravessam. Assim, para além de seu sentido representacional, a prática de Beatriz torna-se um acontecimento performático: uma tradução gráfica do alcance e dos limites da anatomia humana, do vigor do corpo feminino e suas conexões com o ambiente do entorno.

Enquanto Beatriz toma como ponto de partida sua própria gestualidade, através dos rastros gerados por seu movimento corporal, Natalia orienta sua pesquisa à procura dos vestígios já inscritos pelas superfícies físicas e materiais por onde percorre: pelos vales da chapada Diamantina, pelos campos de areia à beira do Atlântico ou mesmo por estruturas de patrimônios em ruínas ou antigas fachadas da construção civil. Na obra de Natalia, o corpo atua em sincronia com o olhar, como agentes de deslocamento. Sua atenção recai sobre a matéria do mundo, seu olhar volta-se ao chão, registrando, por meio da fotografia, as texturas e fragmentos dos lugares por onde transita.

Ao mesmo tempo, o gesto de levar a lente a uma proximidade quase tátil do corpo fotografado desencadeia uma perda de referencialidade. É esse mesmo movimento de aproximação que conduz a uma indefinição de escala. Nas fotos de Natalia, os limites entre o microscópico e o astronômico se confundem, instaurando um campo de ambiguidade perceptiva em que o olhar é levado a questionar sobre aquilo que se vê. Em decorrência, o registro fotográfico torna-se um exercício de percepção — um convite a perder-se na espessura da imagem. 

Entre o gesto que inscreve e o olhar que interroga, ambas as artistas operam em zonas de suspensão — territórios em que o corpo e a matéria se encontram num mesmo campo sensível. Em seus trabalhos, o chão aparece como uma superfície em comum: para Beatriz, é o plano de resistência sobre o qual exerce sua força e deixa sua marca; para Natalia, é paisagem campo de percepção e de vertigem. Em diálogo, suas obras não apenas representam o espaço, mas o fazem existir como experiência. Tanto no movimento de uma, como na observação da outra, ele deixa de ser cenário para tornar-se acontecimento sensorial. Em ambos os gestos, a atenção se volta ao chão — lugar onde o corpo pesa, o olhar vacila e a imagem se faz presente.

Lolla Fabres